“A pé por aqui” – o alento do olhar
“Quando eu nasci
o silêncio foi aumentando.
Meu pai sempre entendeu
Que eu era torto
Mas sempre me aprumou.
Passei anos me procurando por lugares nenhuns.
Até que não me achei – e fui salvo.”
MANOEL DE BARROS
A contemporaneidade está repleta de caos. Nenhuma novidade. Entre cimento e pedras, vamos tecendo uma existência cercada pelo enrijecimento dos sentidos. Passamos pelas ruas no automatismo de passos que sempre sabem onde vão, mas o percurso segue ignorado pela pressa, e parece mesmo, que só esta nos comove ultimamente.
A nossa crise urbana, cujo o carro reina absoluto, vai aos poucos desestabilizando as nossas melhores sensações. Corremos. Cansamos. Sobrevivemos.
Entre buzinas e fechadas, desgastamos nosso olhar para encontrar as razões ou a falta delas para nosso modo de vida acelerado.
Nossos ouvidos estão também surdos. Não ouvimos mais os pássaros, mas eles com certeza, ouvem os nossos ruídos.
As texturas escapam ao nosso tato, tudo é liso, até mesmo as nossas faces, quando passadas pelos photoshops da vida.
Neste ínterim, uma jovem e talentosa fotógrafa parou para viver a cidade. Sim, Alline Nakamura tem vivido a urbe intensamente. Seus passos são cadenciados por um olhar genuíno de quem descobre o mundo em outras possibilidades, no entanto, com eles, nós caminhamos e revemos uma Atibaia cercada de luzes, sombras, fios e cores.
A pé por aqui poderia ser só uma exposição fotográfica, o que já seria o bastante para nosso olhar adormecido, porém, a nossa fotógrafa foi mais longe. Com imagens, ela poetiza o cotidiano, e de forma peculiar, tenta nos mostrar o que há tempo não enxergamos.
Em cada foto, encontramos a beleza do possível, nas contradições de uma paisagem real. Esse encontro nos comove, sobremaneira, pois trata-se das coisas que a atualidade já nos fez esquecer.
A fluidez das imagens impressas em tecido, nos convoca para a contemplação poética das fragilidades do dia a dia.
Alline Nakamura transborda poesia. O seu olhar, assim como o de Manoel de Barros, soube acolher a existência de um modo, que muitos de nós, já não sabemos mais. Vale a pena conferir esta belíssima exposição.
Juliana Gobbe é Doutora em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Autora de Óculos de Marfim e À esquerda do Império (2017). Coordena o blogue “Tecendo em Reverso” e os coletivos Abraço Cultural e Kalúnia.
Texto publicado no Jornal Correio de Atibaia, no dia 21 de junho de 2023.
Arte nos acompanha. Ecoa a humanidade em nós. É sentinela a barrar distrações.
Arte nos acompanha para nos manter lúcidos.
Tenho a sorte de ser habitada pela prática de arte que caminha aos passos de Alline Nakamura desde seus começos. As notícias do mundo que Alline colhe para suas construções de sol e cor e sombra e massa e transparência e vento e água e calçada e lá longe e aqui perto me reconstituem, me fazem não esquecer que meus dias são concretos de presença, de tempo que está de passagem apenas nos relógios. O tempo é a massa dos meus dias quando meus dias se reconhecem nas imagens da Alline.
Não são somente suas imagens que me soletram a palavra tempo em um entendimento de matéria. Alline pratica fotografia diariamente. É uma prática que acontece em seus dias como qualquer outra coisa que seu corpo pede em sua necessidade de rotina. Suas fotografias constituem seu corpo cotidiano.
Alline incorpora a sentilena diligente, a garantir que cada pedaço do mundo seja reconhecido pelo seu olhar. Alline parece avisar ao mundo que ela está a acompanhá-lo, que nenhuma pequena parte será ignorada. Suas capturas são notícias do mundo a ele mesmo, como um bilhete de afeto e lucidez ao que ela fotografa. Ela parece querer retribuir a presença de todas as coisas com a presença inteira dela, a fazer caber coadjuvantes em camadas afirmando que pertence a eles a espessura dos dias.
Vivian Lazzareschi
em memória
Professora de Educação Artística na escola Estilo de Aprender.
Licenciada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Uma das curadoras da exposição “Tudo é desenho”, realizada no Centro Cultural São Paulo, em 2004.
Texto de 30 de outubro de 2020.
PARA ALLINE NAKAMURA,
COM NOSSA TOTAL ADMIRAÇÃO
NESTOR E YNDIARA
De longe, de perto,
Os olhos, o coração sem falhas,
Na emotividade da vida
A sustentação
Das justezas
Do coração.
De longe, desperto:
Decerto
-Evoco o mundo tênue,
Sua direção visonha,
Pobre de quem não enxerga
E vê os sonhos
Como so(m)bras.
Dia 10 de setembro de 2014 – dia da palestra na
Câmara Municipal de Atibaia
Poesia feita pelos artistas-poetas
Nestor Lampros e Yndiara Macedo
O poeta revela seu argumento através da sua criação. Penetra no campo da sensibilidade e percebe nuances delicadas, invisíveis aos olhos. O sensível é também uma experiência. E, para tanto, precisa-se estar disponível à intuição e entregue às diversas tramas e possibilidades sensoriais. Quando é percebida, a realidade não se permite ser capturada e avaliada, ela convida o indivíduo à experiência, reconstruindo-se, transformando-se; na arte, a realidade faz parte de uma subjetividade a ser interpretada e representada. Torna-se criação. A artista plástica, Alline Nakamura, buscou criar sua fotografia encarando a realidade e vivendo a experiência. Na série Transluzires seu argumento ganha uma forma madura, onde os meios justificam os fins, com a clareza que a experiência sensível é capaz de perceber o invisível.
“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” (Guimarães Rosa)
Há, na criação fotográfica de Nakamura, alguns aspectos que lhe situa e destaca no contexto da arte contemporânea. Primeiramente, a artista reporta-se ao seu cotidiano e cria uma identidade própria para as suas imagens. O cotidiano é turvo, fluido, leve. O primeiro olhar, aquele desatento, desprovido da paciência e do labor de pensar, pode julgar e resumir suas imagens por distorções, embaraços e formas não finalizadas. Eis a provocação de Nakamura: não é o fim conclusivo que lhe interessa, nem a imagem congelada de um instante, mas é a constante transformação que as formas e cores se definem na percepção visual. A artista desafia sua técnica e desenha com a luz e o contraste.
Por outro lado, há uma evidente provocação de debate com o panning, técnica que usa o movimento da câmera para dar ênfase a um tema em primeiro plano. A preocupação da artista com o movimento é esboçada pela liberdade de compor uma imagem, evidenciando as distorções que o olhar constrói durante um estágio de passagem, ou ainda: são imagens poéticas onde cada foto pretende ser mais do que a materialização de um determinado local e momento.
Outro aspecto importante, que possibilita que o trabalho de Nakamura dialogue com formas híbridas, sem se permitir fechar nessa ou naquela categoria ou classificação, é o surgimento de um “desenho intuitivo”, fruto de uma criação espontânea. A artista percebe seu entorno e sua preocupação primordial é a luz, a foto. Intuitivamente, ela cria um recorte singular do seu campo visual e queima. O resultado é a aparição de um desenho fotográfico, cujo contraste entre as luzes e as formas existentes no ambiente é forjado para criar uma nova imagem. Não é apenas o movimento da câmera que distorce a forma/cor, mas é também a experiência sensível em trânsito, a mudança constante da maneira como se apreende a paisagem. Nesse sentido, bem como sugeriu Heidegger, a experiência estética de Alline Nakamura precede a criação: antes de haver luz na fotografia, há fotografia na luz.
Stênio Soares
Universidade de São Paulo
2011
As Imagens de Alline Nakamura e o Verdadeiro Delito da Fotografia
As fotos de Alline Nakamura sugerem, como as de Eugène Atget, cenas de um crime. Mas, ao contrário das imagens do fotógrafo francês, que parecem captar sempre a posteriori o ambiente onde algo sucedeu, as de Alline estão carregadas de um outro mistério: não se configuram propriamente como cenários de uma ação já decorrida, mas como espaços para ações que ainda ocorrerão.
O olhar que as capta parece ser o da testemunha da ação ou daquele que sabe que algo ali irá ocorrer: é o olhar do agente do crime, o olhar do fotógrafo.
A metáfora do fotógrafo como criminoso está bastante arraigada em nossa cultura. O fotógrafo como caçador, como aquele que capta a imagem e como quem tira a foto (como se a foto, de fato, tirasse algo de um lugar para colocar em outro) são noções repletas de sentidos ligados à delinquência.
Algumas fotos de Alline revelam alguém à espreita, observando através de uma câmara escura (seu quarto ou um ônibus em movimento) o cotidiano, percebendo nele potencialidades a serem exploradas. O caráter atento desse olhar que vê o mundo sem ser visto ganha intensidade em fotos noturnas ou crepusculares. Nelas, o comum reveste-se de segredos que se tornam ainda mais atraentes pelo uso que Alline faz das potencialidades que o trabalho de laboratório acrescenta ao resultado fotográfico final.
Artista com intimidade com o desenho e a gravura em metal, Alline salienta os aspectos misteriosos do cotidiano, saturando de negro certas sombras, enfatizando sutis gradações de cinzas, tornando espetaculares pequenas manchas de luz. Sedutora, ela atrai o olhar do observador para a representação do local que primeiro flagrou e depois, no laboratório, construiu. E aqui está o seu verdadeiro delito: trazer à tona, para o olhar do outro, imagens que nunca seriam observadas com atenção caso não fossem mediadas/controladas pela sua sensibilidade e perícia.
Tadeu Chiarelli
2004